Retoque sem faca

O Botox é a sensação dos tratamentos temporários de rejuvenescimento no rosto.

Daqui a pouco vira vicio: fila na porta da clinica, doses repetidas, gente que só enfrenta uma festa depois da injeção milagrosa. Na luta contra o relógio, aumenta, no mesmo ritmo do surgimento das rugas depois dos 40, a procura pelo tratamento facial – aquela intervenção rápida e rasteira, que rejuvenesce sem cortes, anestesia ou hospital. Não é uma receita isenta de sacrifícios. Os tratamentos mais concorridos envolvem injeções de substancias com nomes assustadores, raspagem profunda da pele (o chamado peeling) e aplicações de correntes elétricas. Nenhum é definitivo – de tempo em tempo, um retoque é obrigatório. Nada que se compare, porém, à dor, aos riscos e ao preço salgado de um lifting, a plástica que puxa, repuxa e zera o rosto das marcas do tempo. Do pioneiro colágeno, que pouca gente ainda usa à estrela do momento, o Botox, vaidosas e vaidosos esticam a pele com a desenvoltura de um extraterrestre de filme B.

“Nos Estados Unidos, Botox é moda”, confirma o médico Farid Hakme, presidente da Sociedade Brasileira Plastica, recém chegado  de um congresso americano de cirurgia plástica. Lendo sua definição no dicionário, ninguém diria. Botox é uma droga extraída da bactéria responsável pelo botulismo, doença causada por alimentos mal conservados que paralisa a musculatura do organismo e leva a morte por asfixia. O principio estético é exatamente o mesmo, embora infinitamente reduzido: uma picada de Botox nos músculos da região enrugada e a pessoa passa a sorrir ou se zangar sem franzir o rosto. Indicada para as chamadas rugas de expressão da parte superior do rosto – aquelas entre as sobrancelhas, na testa e em volta dos olhos (os execrados pés- de- galinha) –, a droga é aplicada sem anestesia em sessões de no máximo vinte minutos. Existe muita precisão, pois paralisar o músculo errado pode render um olho caído, mas é eficiente. “Em 72 horas, o rosto está liso nessas áreas” garante o cirurgião plástico Paulo Matsudo, pioneiro da técnica no Brasil. Liso mesmo – ainda que arregale os olhos no maior espanto a testa da pessoa não franze nem uma linha. Prazo de validade: cerca de seis meses.

Arma química – “Já fiz umas oito aplicações nos últimos quatro anos”, conta satisfeitíssima, a relações-públicas Dulcinéia Pereira, de 30 anos, que tomou a primeira injeção aos 26. “ As picadas não doem, não perdi a expressão e pretendo continuar o tratamento por muito tempo.”
Concorda com ela a ultravaidosa dona de casa Isabel Nogueira, 38 anos, seis aplicações em três anos. Veteranas de cirurgias de lipoaspiração e tratamentos com ácido, ela se apaixonou pelo Botox. “O resultado é fantástico”, garante. Apesar dos aplausos, o entusiasmo pelo Botox no Brasil, onde chegou a cerca de quatro anos, ainda é café pequeno em relação aos Estados Unidos. O brasileiro Matsudo  contabiliza uma média de doze aplicações por semana; em Miami, o papa do Botox, o dermatologista Fred Brandt executa em seu consultório cinqüenta a oitenta aplicações semanais em clientes menos e mais famosos, entre eles Madonna, Cher e Sylvester Stallone. Tanto Matsudo quanto Brandt põem em prática o que pregam: ambos já aplicaram Botox em si mesmo.

Só no ano passado a venda do produto nos Estados Unidos cresceu 38%. Lá já se usa até um verbo novo: “botoxar”. A farra, no entanto, corre o risco de empacar em um obstáculo inesperado: o FDA, órgão americano de controle de medicamentos (e que, no caso de substâncias perigosas, libera uma a uma cada partida que a fábrica apronta) , ainda não aprovou  a comercialização do novo estoque de toxina botulínica que o laboratório Allergan – que fatura 100 milhões de dólares por ano, com o Botox, sua galinha dos ovos de ouro – tem pronto para por no mercado.

O motivo de tanto cuidado é geopolítico. O governo americano teme que o produto vá acabar, por vias tortas, nos clandestinos arsenais de armas  químicas do Iraque de Saddam husseein.

Com fins totalmente pacíficos e estéticos, o Botox tem tudo para estourar no Brasil, um dos campeões mundiais de cirurgias plásticas faciais: o rosto é alvo de 10 % das 200.000 opreações estimadas neste ano no país. Mas, por enquanto, ainda é superado em procura pelas chamadas injeções de preenchimento, com substâncias que “estufam” e alisam a pele enrugada. Neste departamento, a lista dos adeptos famosos no Brasil é longa: já se submeteram às picadas de Artecoll, a substância mais procurada no momento, a governadora Roseana Sarney, as atrizes Françoise Fourton  e Bruna Lombardi e o jogador de futebol  Juninho. O Artecoll, um tipo desenvolvido de colágeno, trata com eficiência de marcas mais profundas. Dura de três a cinco anos, mas pode causar alergias. Uma opção mais branda, usada recentemente usada por Vera Fischer, é o ácido hialurônico, indicadas para rugas médias e superficiais. Dura só um ano, mas não tem efeito colateral.

Dulcinéia faz mais uma aplicação de Botox (acima, antes e depois): "Vou continuar"

O cardápio de técnicas de preenchimento oferece ainda o Gore-tex, de aplicação um pouco mais complicada. Trata-se de um fio maleável de fibra sintética que funciona como um implante definitivo: sob anestesia local, o médico faz duas picadas nas extremidades da ruga,  introduz o fio e “costura”. Muito usado no sulco entre o nariz e a boca e para aumentar a espessura dos lábio – a chamada “bardotização” –, o Gore-tex tem o inconveniente de poder ser notado quando se apalpa a área tratada.

Força da gravidade – Quem detesta injeção ou tem pele muito marcada pode enfrentar o sacrifício do peeling a laser, o mais incômodo dos tratamentos faciais. Nele, jatos de luz descamam a pele enrugada, permitindo o surgimento de uma nova camada. “Este procedimento tem um pós-operatório delicado”, alerta o cirurgião das estrelas Ivo Pitanguy – que na sua clinica no Rio de Janeiro um departamento só para tratamentos faciais. Quem se submete ao peeling fica com o rosto vermelho como beterraba, inchado e, na primeira semana, coberto com curativos. Sol é vetado por seis meses – sair de casa, só debaixo de uma manta de protetor solar, para evitar manchas. A recompensa é uma pele de bebê.

Cada vez mais fáceis, práticos e divulgados, os tratamentos faciais sem bisturi também se popularizam por causa do preço comparativamente acessível . Em quanto um Lifting  de rosto não sai por menos de 10.000 reais num cirurgião com nome firmado, o peeling a laser custa por volta de 4.000 e as injeções, de 500 a 1000 reais por sessão. A longo prazo,  nem adianta fazer contas, pois só a plástica convencional dá jeito. Depois dos 45 anos, a força da gravidade, somada à diminuição natural da produção do colágeno e elastina (as substâncias que dão sustentação e elasticidade à pele), resultam em envelhecimento e flacidez. “nenhum método paliativo rejuvenesce a pele nesse estágio” diz o cirurgião plástico Munir Curi. ”Contra o peso da idade, é impossível fazer milagre”.