Beleza debaixo do véu

O cirurgião plástico Luiz Toledo, o Doutor Bumbum, comemora a troca do consultório em São Paulo por uma clínica em Dubai

Foto: Rabih Moghrabi

Foto: Rabih Moghrabi

Toledo, na Mercedes e em consulta: “Já operei a mama de mulheres de quem nunca vi o rosto”

De monóculo pendurado no pescoço “para ver melhor as rugas”, o cirurgião plástico Luiz Sérgio de Toledo, 60 anos, conquistou tamanha popularidade no Oriente Médio que há pouco mais de seis meses tomou uma decisão drástica: encerrou as atividades de seu consultório nos Jardins, em São Paulo, deixou seus pacientes aos cuidados de um colega, pegou esposa inglesa e duas filhas adolescentes e instalou-se de mala e bisturi no minúsculo e riquíssimo Dubai, nos Emirados Árabes. Nas areias escaldantes de Dubai (figura de linguagem, claro: lá, o ar condicionado é incondicional e abundam as construções mirabolantes), ele opera rosto (60%) e corpo (40%) de homens e mulheres árabes (90%), uma clientela que está em permanente expansão. Conhecido em congressos internacionais como Dr. Buttock (literalmente, Doutor Bumbum, designação eventualmente antecedida do gentílico Brazilian, para ressaltar suas qualidades), por causa das aulas de lipoescultura que dá até hoje baseado em técnica que desenvolveu com o colega Paulo Matsudo na década de 80 – “Enxerto de gordura em nádegas e glúteos era a nossa novidade”, conta Matsudo –, Toledo iniciou uma ligação mais próxima com os árabes há seis anos, quando começou a ser procurado por membros de algumas das imensas famílias reais do Oriente Médio. “Os médicos particulares dessas famílias faziam pesquisa nos congressos, viam meus livros e me chamavam para as cirurgias. Nos últimos quatro anos, viajava para o Oriente Médio em média cinco vezes ao ano”, contabiliza ele. Em outros casos, os pacientes vinham ao Brasil, à sua procura.

Foi assim até que um colega de Dubai precisou se afastar de sua clínica temporariamente e o convidou a ficar no lugar. “Operei em quinze dias aqui mais do que em três meses no Brasil”, diz Toledo. Diante da proposta de sociedade feita pelo mesmo médico, Ali Al Numairy, um dos pioneiros na área nos Emirados e membro fundador da associação de cirurgia plástica local, Toledo deixou para trás uma carreira que não chegava a estelar (embora tenha sido um dos responsáveis pela área cirúrgica da conhecida clínica Kyron, da empresária Yara Baumgart, em quem fez uma lipo) e a sombra do processo decorrente da morte de uma paciente sua, em 1997, após uma lipoaspiração – “Um caso resolvido”, na definição do médico, que foi absolvido na ação criminal.

“Quando Toledo chegou a Dubai, demos toda a logística necessária: ele apareceu em quinze a vinte programas de televisão, deu entrevista no rádio, teve acesso a nossa lista de 7.000 pacientes. Também ensinamos algumas regras básicas de convívio no país”, relata Numairy. Uma: só se estende a mão a uma mulher se ela o fizer primeiro, o que é muito raro. Outra: o copo de café deve ser entregue pela mão direita; devolvê-lo vazio é sinal de que se quer mais; recusar é falta de educação; chacoalhar demonstra que se está satisfeito. Outra ainda, essencial: “Nos países ocidentais, as pessoas em geral lêem sobre um procedimento antes da primeira consulta. Aqui é preciso explicar tudo. Muitas vezes as explicações não são suficientes, o paciente se surpreende com o resultado e invariavelmente começa a gritar e chorar no consultório, então precisamos acalmá-lo”, relata Numairy.

Na clínica, homens e mulheres têm salas de espera separadas. Embora a grande maioria da população fale inglês, há sempre um intérprete de plantão, uma vez que Toledo mal arranha o básico do árabe. Algumas pacientes ainda chegam ao consultório totalmente cobertas e é comum ter de examiná-las sem que tirem as luvas e o véu encobrindo a cabeça. “Já operei pacientes de mama de quem nunca vi o rosto”, conta Toledo. Por baixo de tantos panos negros, essas mulheres querem o mesmo que as brasileiras, americanas ou francesas: corpo mais enxuto, rosto harmonioso, busto saliente. Assim, as cirurgias mais pedidas são lipoaspiração, lifting de barriga, prótese mamária, rejuvenescimento facial e muitas rinoplastias. “Há uma carência de cirurgiões plásticos no Oriente Médio, onde esse tipo de cirurgia está se desenvolvendo muito”, diz, com conhecimento de causa, o cirurgião Munir Curi, que há anos atende, no Brasil, pacientes vindos do Líbano, de Israel e da Arábia Saudita. No seu cadastro de pacientes figura o ditador líbio Muamar Kadafi, em quem fez um implante de cabelo. “Anos atrás o professor Pitanguy esteve no Irã, operando, por uns dois meses. Com ele espalhou-se a fama do cirurgião plástico brasileiro extremamente habilidoso e preparado. É um mercado muito promissor”, afirma Curi. Toledo concorda. Pelos seus cálculos, em Dubai opera o dobro de pacientes e cobra, em média, 20% a mais. “Dizem que, quando o cavalo passa selado, você deve pular em cima. E o meu ainda era um cavalo árabe”, brinca. Fora da área das metáforas, ele anda numa vermelhíssima Mercedes SL conversível. A moto de estimação, uma Suzuki Intruder, espera a documentação encostada na garagem da casa onde mora, à beira da praia.

Fonte: Revista Veja